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2010-12-21

MusiContos - A Horse With No Name parte 1

Certas coisas fazem pouco ou nenhum sentido, como vim parar aqui e por que? Detalhes estúpidos de um dia que saiu do comum, o impulso de roubar um carro o desejo praticar algo que eu não podia e nem estava acostumado a realizar. Aliás acho que a rotina e o costume existem pra evitar que façamos merda.

Não sei por onde começar esta história, aliás não sei onde ela começou, se pelo roubo, se pelo desejo de roubar, se quando eu percebi que minha vida estava uma merda, se quando comecei esta rotina, que até a 2 dias atrás eu achava uma merda mas descobri que me protegia do caos, não faço ideia, vou tentar começar o por falar de mim.

Meu nome na verdade pouco importa, sozinho onde estou é estupidez me preocupar com detalhes como estes, moro em uma cidadezinha esquecida no meio do sertão, um fim de mundo que fica há quase uma semana de qualquer lugar que ao menos lembre civilização, uma cidade bem pobre com uma pessoa importante e só, um coronel local, que é praticamente dono da cidade, não é dono de tudo mas sem seu apoio ninguém consegue nada, obvio que temos um prefeito e é trocado a cada 4 ou 8 anos dependendo de quem o coronel resolve apoiar. Você deve estar se perguntando a respeito da lei, alguma força policial local, claro que existe, eu inclusive sou escrivão da policia, um cargo tão inútil quanto eu nesta pocilga.

Lembro quando um delegado novo chegou, cheio de boas intenções, estava na cidade a menos de 1 dia e cheio de disposição para trabalhar, saiu distribuindo ordens para seus dois soldados encarregados (um fim de mundo com mais ou menos 2000 habitantes não precisa de muito mais do que isto) e obvio pra mim, quando entra na pequena delegacia o Sr.Coronel e um séquito de pelo menos uns 20 homens mal encarados, todos com pelo menos uma espingarda no ombro e mais um revolver na cintura, ele entra a frente dos homens, convida o delegado a se sentar (em sua própria cadeira), senta-se sobre a mesa e começa a falar:

-Seja muito bem vindo a nossa cidade -Passou a mão mexendo nas coisas que o delegado tinha em cima da mesa - Sabe aqui é um lugar muito calmo muito tranquilo, você não vai ter problemas para fazer seu trabalho aqui e é claro eu pretendo te ajudar em tudo que eu puder, mas antes de mais nada tenho que lhe mostrar os meus meninos – Ai ele virou a mão apontando os homens que entraram com ele e abarrotava aquela sala minuscula. - Olha bem pra cara deles, se o senhor tive que trazer qualquer um deles pra cá, me liga, dai eu resolvo o que agente precisa fazer, entendido? È só isso – Levantou e saiu da delegacia deixando o delegado la com cara de bobo.

Obvio que este delegado o obedeceu e logo entrou no grupo dos subordinados do coronel que fazia tudo que ele deixa que fosse feito.

Quanto a mim, nunca liguei para nada nesse lugar, quando tinha idade suficiente comecei a trabalhar e depois de fazer muitas coisas que o coronel pediu meu pai me conseguiu este emprego de escrivão, não que eu fosse contratado como se deve, o coronel simplesmente me botou aqui dentro e disse pro delegado da época:

-Esse rapaz é o novo escrivão da policia – Simples, rápido e sem muita dor de cabeça, geralmente quando o Coronel decidia algo era assim.

Eu nunca tive grandes sonhos, na verdade nunca tive sonho algum, trabalhava voltava pra casa, desde que meu pai faleceu moro sozinho, na mesma casa que morava com ele, comprava toda vez que chegava até esta banca de fim de mundo uma revista sobre carros, acho que por não ter muitos aqui eu sempre me fascinei por eles, a velocidade sempre me imaginei dirigindo por ai pegando a estrada sem rumo algum, não que eu pretendesse fazer isto algum dia, apenas achava legal a ideia e foi daí que começou a merda toda.

Como eu disse nesta pocilga que eu chamo de minha cidade, há pouquíssimo carros, uma viatura da policia, que é uma Veraneio 1965, caindo aos pedaços, durante um certo tempo cogitei virar soldado da policia pra poder dirigir a veraneio, mas acabei desistindo, teria muito trabalho, só pra poder dirigir uma porcaria daquelas. Além disto a prefeitura da cidade tinha um carro Oficial, um Landau 1972 e uma ambulância, no mais os cidadãos andavam a cavalo, carroças e alguns poucos (sua maioria os rapazes do Coronel) andavam com motos 125cc.

O Coronel por sua vez já tinha dois carros sendo um landau igual ao do prefeito e um Galaxy 1975, ambos só dirigidos por ele, ninguém mais tinha autorização de sequer encostar em um carro do Coronel sem ele por perto e para sua felicidade (e minha danação) ele adquiriu um terceiro carro, uma das coisas mais linda que eu já vi na minha vida, um carro com linha sbrutas, motor potente, um barulho inconfundível e na grade frontal um lindo cavalo correndo para a esquerda, demonstrando que ao contrario dos cavalos de turfe que correm em sentido horário, ele correria para o lado que quisesse era um corcel impossível de ser domesticado, era um Mustang 1975 preto, com faixas douradas na lateral e no capô saltado pra dar lugar a uma entrada de ar, era a coisa mais linda que eu já vira na vida, começou ai meu tormento.

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